Jikulumessu, Diversidade e Proporcionalidade

Um dia enquanto usava o computador, minha mãe assistia TV. Ao desviar a atenção para a tela, notei uma sonoridade estranha. A partir dali, comecei a reparar na novela que ela estava assistindo e reparei que existia algo diferente. Por fim descobri que se tratava de Jikulumessu, uma novela Angolana que estava sendo transmitida pela TV Brasil.

Jikulumessu

Além do sotaque diferente, uma outra coisa me chamou atenção: a grande maioria dos personagens são negros. Me arrisco a dizer que enquanto via aquele episódio não encontrei nenhum personagem branco. Obviamente isso faz total sentido, afinal a população lá e majoritariamente negra. Ao realizar a seleção dos atores é natural que existam mais atores negros. Estenda isso para outros países, em um filme da Coreia do Sul por exemplo é esperado que existam em sua maioria personagens de ascendência asiática.

No nosso país então, espera-se que a quantidade de negros nas produções audiovisuais seja equivalente a quantidade de negros no país, mas como diria Mano Brown:

A vida real é bem menos contagiante do que a vida artística, rapaz…

É mano, a oposição tá sempre de sentinela só esperando. Pode-se dizer que os negros estão presentes na televisão, afinal como se esquecer daquele carinha simpático do BBB, que saiu nas primeiras semanas mas que deveria ter ficado mais um pouco, como é o nome dele mesmo? Como não lembrar também do belíssimo casal, integrante da lista dos 100 negros mais influentes do mundo. Inclusive sempre bom reforçar o pedido: Lazaro avisa pra Tais que to muito feliz em ver os dois juntos.

Ao assistir TV, mesmo com tão poucos rostos negros posso dizer que eles me representam sim, muito obrigado! Só que o buraco é mais embaixo, vou me fazer valer de um jargão manjado de teoremas matemáticos para explicar: a representatividade é necessária mas não é suficiente.

Aproveitando a deixa matemática, vamos entrar em números. Em Junho de 2017 o coletivo de comunicação Vaidape fez uma pesquisa sobre os apresentadores da TV Brasileira e constatou que apenas 3,7% dos apresentadores são negros. Sendo que de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2014, organizada pelo IBGE, 53.6% da população brasileira é composta por negros. Em uma sociedade em que as oportunidades são iguais, naturalmente a proporção de negros na televisão seria próxima a populacional, e é isso que falamos quando nos referimos a Proporcionalidade. A proporcionalidade é o anseio de que as produções representem a cor do nosso povo.

Um questionamento pode ser levantado: qual a real necessidade da proporcionalidade na TV? A resposta está exatamente no comparativo entre as novelas brasileiras e Jikulumessu. Com uma grande quantidade de negros na novela, a estereotipagem torna-se uma tarefa mais difícil. Na novela Angolana pude ver uma variedade imensa de negros, vi diferentes tons de pele, diferentes traços físicos e principalmente diferentes formas de se portar e pensar. Pude ver principalmente que os pretos conseguem atuar em papéis que vão além da empregada ou do bandido.

Elenco Jikulumessu Elenco da novela Jikulumessu

Salvo as já conhecidas e manjadíssimas novelas sobre escravidão, a quantidade de negros nas novelas Brasileiras é irrisória. Você já parou pra pensar que só depois de 21 anos no ar, a novela Malhação teve uma protagonista negra? Adivinhem só, ela é empregada! Longe de mim desmerecer essa profissão, inclusive ta aí uma profissão honradíssima, mas precisamos entender que os negros não são só empregados. Inclusive cansamos de ser retratados como empregados, queremos ser visto como patrões.

Elenco O outro lado do Paraiso Elenco da novela O Outro Lado do Paraíso

Em Jikulumessu existem negros empregados, negros patrões, negros de má índole e negros de boa índole. Existem negros em geral, ressaltando a diversidade e complexidade do povo preto. Espero muito que possamos aprender com eles.